Coluna de Afa Neto: ENTRE O FAZER E O SER.


“Quando a verdade vira slogan, perde-se o sentido da mensagem” (Rodolfo Pamplona Filho​)


O verso acima nasceu de uma homilia que proferi ontem à noite e o Rodolfo, como sempre, foi preciso e sensível ao traduzir prosa em poesia. A verdade transformada em slogan, em questão, é a parte final do verso 15 do capítulo 24 do livro bíblico de Josué: “Eu e a minha casa serviremos ao Senhor”. Repetimos isso aos borbotões e, como consequência, descolamos a declaração do seu contexto.

O momento é grave e a tal declaração está encrustada numa narrativa cheia de confrontação. O povo de Israel, depois de assentado em Canaã, tem que conviver com a pluralidade e para tal, era necessário uma atitude decidida por parte do povo sobre que caminho seguir em seu projeto de espiritualidade. Isso se traduz no ultimato de Josué no início do verso 15 “Escolham hoje a quem irão servir; se aos deuses dos seus antepassados… ou aos deuses dos amorreus…”. Em contexto de pluralidade a grande sabedoria está em saber fazer as escolhas certas. Não dá para se ter tudo o que está disponível. A vida já nos ensinou sobejamente essa verdade.

Depois da profissão de fé da Josué em seu nome e de seu clã, o povo adere vigorosamente. É aí que a narrativa ganha contornos inusitados. Para quem esperava um Josué eufórico pela adesão fácil do povo que comandava, surge a grande surpresa. O líder do povo começa um processo de confrontação que beira o desestímulo. Na contramão das promessas de facilidades vendidas por líderes religiosos em todos os tempos, principalmente o nosso, Josué prefere falar das dificuldades que aguardam todo aquele que se habilita ao serviço ao Senhor. E isso por um motivo simples: servir ao Senhor não é uma coisa fútil, que se possa fazer de maneira irrefletida e sem consciência das suas implicações.

Mas como o texto está ficando longo, deixa eu ir direto ao ponto. A partir do verso 16 até o 24 nós vamos assistir uma contraposição de motivos/razões para servirmos a Deus. O povo decide servir a Deus por toda uma história passada do FAZER de Deus na vida deles e dos seus antepassados. As mesmas razões alegadas por todos nós quando falamos do que nos levou a servir ao Senhor. Para surpresa nossa, Josué desqualifica esta justificativa. Depois do longo, belo e empolgante discurso do povo, o líder declara sem rodeios: “Vocês não têm condições de servir ao Senhor” (verso19). E imediatamente complementa sua reprimenda: “Ele é Deus santo! É Deus zeloso! Ele não perdoará a rebelião e o pecado de vocês”. 

Noutras palavras, a única razão que justifica um serviço a Deus que não sucumba diante das adversidades ou da mudança das eras é o SER de Deus. Ou seja, não é pelo que Deus fez ou faz, mas pelo que Ele É. O Deus que libertou do cativeiro egípcio foi mesmo que mandou esse mesmo povo para o cativeiro babilônico. O que cura é o mesmo que não decide curar, o que abre a porta de emprego é o mesmo que visita o desempregado, o que une um homem e uma mulher é o mesmo que vê o fim de um casamento. Se a melhor razão que temos para servir a Deus for sua utilidade, então certamente cambalearemos entre as opções de divindades do mercado do utilitarismo.

A alternativa de Josué é servir ao Deus Santo, Zeloso e Fiel. Nunca houve nem haverá um dia em que esse Deus deixe de ser santo, zeloso ou fiel. Portanto, se essas forem as nossas razões, sempre as teremos.

Afa Neto​

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